(RE)VISÕES DA INFLUÊNCIA AFRICANA NA ARQUITETURA BRASILEIRA

Miriam C. N. Dias

Ao se pensar os caminhos de uma nação miscigenada, diversos profissionais analisaram, dentro de suas áreas de atuação, qual foi a participação de cada raça que originou o Brasil. Na arquitetura e no urbanismo não foi diferente pois vários pensadores tentaram com seus conceitos dissecar a arquitetura brasileira. Vamos analisar o que foi dito por alguns deles entre as décadas de 50 e 70 do Século XX:
Lúcio Costa, o arquiteto brasileiro (apesar de ter nascido na França) que sagrou-se nesta nação como urbanista (apesar de alguns episódios suspeitos como instigar a demolição do Palácio Monroe, que havia sido premiado como a construção mais linda do mundo em 1904, apontando-o como um “erro arquitetônico”) e responsável pelo Plano Piloto da Capital Federal, em um texto de 1951, intitulado "Depoimento de um arquiteto carioca", expõe sua análise sobre a influência do negro na arquitetura brasileira, onde aponta o escravo africano como uma “mistura de bicho e gente” da qual dependia a habitação, o que ele chamou de “máquina de morar”. O conforto da casa estava na presença do negro, pois era ele que fazia a casa funcionar já que as notícias sempre chegavam porque havia o negrinho de recado, as crianças ficavam bem porque havia a negra babá, o negro era o esgoto, pois era encarregado de retirar os excrementos da casa, era também o duto condutor de água corrente quente ou fria, era o monta-cargas, o criado-mudo, o ventilador, o candelabro e muitas vezes o interruptor de luz, o botão da campainha ou até lavador automático... Para ele, “o negro não participou com formas, elementos ou técnicas construtivas, mas como meio do funcionamento da casa.” Com a abolição, a habitação teve que reformular o seu programa de necessidades e suas áreas. Segundo ele, muitas de suas conclusões foram tiradas com base nas pinturas de Debret, que em seus registros do cotidiano brasileiro, sempre retratou o negro serviçal. Foram estes registros que foram para os livros de história, os museus e foi desta forma que sua história nos foi apresentada.

Quadro “Um jantar brasileiro” de Jean Baptiste Debret. A mulher ao lado do ventilador “se distrai com as crianças em substituição aos cãezinhos” segundo as palavras de Debret.

Outro pensador a compartilhar do assunto foi João Baptista Pianca, professor da UFRGS, em seu livro “Compilações de Arquitetura no Brasil”, afirma que a influência do negro é imaterial, ou “de características impalpáveis” que são “a suavidade e a ternura que devemos atribuir ao sangue negro.” (No meu entender, significa que os negros não fizeram nada, mas pelo menos estavam ali de coração... O sangue é só um toque poético...)
Outro autor, John Bury, nos anos 50 afirmou em seu livro “A arquitetura e a arte no Brasil colonial”, que não houve contribuição artística indígena ou africana que compusesse a individualidade brasileira. Ele apresenta a arquitetura brasileira como fruto exclusivo da tradição europeia, afirmando que negros e indígenas não participaram da composição da arquitetura nacional. Para ele, o único caso que foge à regra e “que era digno de menção” é o Aleijadinho, com seu talento individual e único.
O autor Paulo Ferreira Santos, em seu livro ”Quatro séculos de arquitetura”, de 1977, também compartilha do pensamento de Lúcio Costa, e afirma que a abolição foi um fato capital para a arquitetura, deixando um forte impacto na economia, nas famílias, onde os negros atuavam efetivamente (afinal, agora as mães teriam de cuidar de seus próprios filhos) e na casa “fosse ela rural ou urbana, cujo funcionamento dependia dele e agora sem ele, o programa teve de ser não somente reduzido como modificado na sua orgânica e no seu funcionamento.


Plantas das residências do Período Colonial. À esquerda uma residência urbana e à direita uma residência do campo.
Fonte: Iconografia de Debret.

Já Sylvio de Vasconcelos, em seu estudo “Villa Rica: formação e desenvolvimento” de 1977, onde fala sobre as origens arquitetônicas da cidade de Ouro Preto, atribui parte da qualidade artística característica de Minas Gerais com a herança cultural negra que traziam os seus antepassados e a liberdade que os mulatos desfrutavam naquela sociedade, dada a sua condição social.
O autor  Nestor Goulart Reis Filho em seu “Quadro da Arquitetura no Brasil” tem citações onde afirma que o que o negro escravo realizava era quase sempre de pouca qualidade. Para ele, a mão de obra escrava sempre grosseira e imperfeita, deveria ser substituída por criadagem européia. Dizia também que as construções aproveitando a mão de obra escrava eram rudimentares.
De fato, a escravidão significou um atraso nas formas de pensar e usufruir da arquitetura. A visão colonial que determinou quem era capaz e quem não era, de acordo com a etnia, infelizmente ainda mantem os seus traços vivos em pleno século XXI. É o que faz um artista criar móveis e objetos decorativos que mantém o negro em posição de servidão, como cadeiras, mesas e suportes de vasos ou balaústres.

As fotos acima de exposição disponíveis no site russo https://www.buro247.ru/culture/arts/29-aug-2019-armchair-case.html onde há um artigo que discute porquê os ocidentais são tão sensíveis a essas imagens. No mesmo artigo, questionam qual é o problema de ter um garçom negro em uma recepção, já que é um artigo de luxo possuir um escravo negro...

Foto de um porta-toalha de um casarão em bairro nobre de São Paulo. 2019
Fonte: Foto da autora


Pra quem ainda não entendeu porquê se tem falado tando em racismo estrutural nos últimos tempos, é que ainda nos nossos dias, a estrutura criada para impedir a entrada do negro na cidadania brasileira funciona, mantendo-o na condição de servidão, de sub-emprego e situações afins. Essa discussão precisa ser levada a sério, pois há muitas contribuições do negro na arquitetura brasileira escondidas nas paredes da nossa história.

Assista o vídeo em https://youtu.be/RnwbfbqMoPQ.

Referências Bibliográficas

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