HISTÓRIAS CONTADAS X HISTÓRIAS VIVIDAS

Algumas histórias são contadas para nós de forma a nos encantar e apaixonar, independente de quão horrível ela seja, tudo é uma questão de como se conta. Qual menino nunca desejou ser aquele alto representante do governo que encontrou um defunto no meio do mato, cercado de animais selvagens e sentiu uma forte vontade de beijar aquele defunto? Qual menina nunca se encantou com a história da garota que perdeu a mãe e a madrasta mandou matá-la e que para não morrer ela foi morar com sete homens no meio do mato? Parece ruim isso? É porque não foi bem assim que te contaram...


Na nossa vida real ouvimos também muitas histórias que foram manipuladas para direcionar o nosso olhar ou os nossos sentimentos. Em minha trajetória acadêmica, sempre estudei sobre a contribuição européia e norte americana na arquitetura brasileira. Algumas vezes, ouvi até algumas citações sobre a contribuição asiática, mas em si tratando dos povos que originaram essa nação, a arquitetura indígena permaneceu nas poucas tribos que restaram nunca se falou sobre nenhuma contribuição africana a não ser na culinária e na configuração da língua portuguesa no Brasil. O que não te contaram é que os africanos escravizados que começaram a chegar no Brasil no final do Século XVIII, chamados "Malês" (termo iorubá que significa "muçulmano") trouxeram uma significativa contribuição para a arquitetura brasileira, das quais muitas delas utilizamos até hoje.

Já naquele tempo, uma pessoa só poderia ser considerada muçulmana se fosse letrada, o que equivale dizer que estes escravizados, vindos em sua maioria da região sudanesa da África, eram letrados, tinham profissões, sabiam fazer contas e não abriam mão de sua cultura que, alíás, por serem muçulmanos tinha uma forte influência árabe. Segundo a Antropóloga Lídice Meyer Pinto Ribeiro, da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP),  autora do livro Negros Islâmicos no Brasil escravocrata, estes africanos se diferenciavam dos demais por serem alfabetizados em árabe e possuírem conhecimento de matemática. Eles sabiam fazer negócios e muitos conseguiram comprar sua alforria e aplicaram os seus conhecimentos e suas experiências nas construções em que viveram.


 Segundo historiadores, muitos conseguiram comprar a parte de baixo das casas dos brancos europeus e criaram na entrada da casa um grande cômodo onde poderiam praticar de forma discreta o "Salah" ou "Salat", que eram as cinco orações diárias do Islã e que batizou a maioria dos cômodos no Brasil (sala). Abro aqui um espaço para comentar que, diferente da América do Norte onde todos os cômodos são "quartos", como o quarto de banho (bathroom), quarto de vivência (living room), quarto de dormir (bedroom), quarto de aula (classroom), etc, no Brasil temos sala de estar, sala de jantar, sala de aula, etc. Os convidados que vinham discretamente (pois não havia liberdade religiosa naquele tempo) para a "Salah", eram recebidos com um cumprimento exagerado e cerimonioso chamado em árabe de "As Salamu Alaikum" ou "Salamaleico" que o português do Brasil transformou em "Salamaleque", que significa "haja paz em ti". Na corte portuguêsa, o salamaleque era empregado como uma forma de reconhecer as pessoas que faziam parte da nobreza.

Os malês deixaram muitas de suas marcas na arquitetura brasileira:


Conhecedores que eram de regiões de deserto, trouxeram muitas características da arquitetura dessa região, como as casas conjugadas, venezianas e esquadrias estreitas, que são elementos utilizados para proteção em caso de tempestades de areia. Além disso, sabiam fabricar azulejos e aplicar o telhado tríplice, cujas partes se chamavam "Eira", "Beira" e "Tribeira". que era a camada superior do telhado.  A Eira e a Beira eram difíceis de executar, precisavam de mão-de-obra especializada e por isso era muito caro. Quem não tinha dinheiro para pagar por este serviço, cobria a casa somente com a Tribeira, daí a se dizer que quem não tem dinheiro está "sem Eira nem Beira".


Os muxarabis e os cobogós (elementos vazados de cerâmica usados na construção civil) também vieram com eles que foram os primeiros a compartilhar da cultura árabe no Brasil. Como as mulheres muçulmanas não podiam transitar nas ruas onde haviam outros homens, para não ficarem totalmente enclausuradas, eles utilizavam estes elementos vazados que, assim como as treliças e as venezianas, as permitiam ver o exterior sem serem vistas.


Os africanos escravizados deixaram no Brasil um legado maior do que o que nos contaram... Os livros de história nos apresentaram apenas os escravos maltrapilhos e maltratados. Aposto que nunca te contaram que os turbantes e os abadás que hoje estão nas passarelas e nas festas populares, eram por eles usados como forma de reverência nos momentos de oração. O conhecimento é o que traz luz para a nossa vida. Estes africanos tinham conhecimentos muitas vezes mais elevados do que aqueles que os tinham trazido à força, por isso foram vistos como ameaça. Após uma tentativa frustrada de revolta inicialmente com o fim de libertar seu líder religioso que havia sido preso por professar sua fé proibida, alguns foram mortos, outros foram terrivelmente açoitados e o restante foi deportado de volta para a África, garantindo assim que somente os ignorantes permanecessem acuados o suficiente para não se opor ao regime escravocrata... 

Não foi assim que te contaram, mas foi assim que aconteceu...




Referências Bibliográficas

REIS, J. J. - Rebelião Escrava no Brasil - A História do Levante dos Malês em 1835. 3ª Ed. 2012 – Salvador – BA

 FARELLI: Maria Helena. Malês: os Negros Bruxos. São Paulo: Madras, s.d.. 96p. il. ISBN 8573742402

REIS: João José dos - “Rebelião Escrava no Brasil” - Rio de Janeiro: Ed. Brasiliense, 1987


     ALGRANTI, Leila M. O Feitor Ausente. Estudos sobre a escravidão urbana no Rio de Janeiro - 1808-1822. Petrópolis: Vozes, 1988.

     SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Cultura e Sociedade no Rio de Janeiro (1808-1821). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978, p. 45.

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